sábado, 17 de janeiro de 2015

"Ó paí, ó"!!

Existem obras culturais que não deveriam ser classificadas como ficção, tal a incrível semelhança com a realidade. Havia assistido ao filme "Ó paí, ó", anteriormente, mas não prestei a devida atenção como na exibição da semana passada. Como dizemos por aqui, "fiquei ligado" do início ao fim. Só quem é baiano e vive em Salvador pode se deliciar plenamente com a realidade da comédia. Apesar da galhofa apresentada por seus personagens, o filme mostra sim a mais absoluta realidade de quem vive no Centro Histórico de Salvador e que, como todos os outros habitantes da cidade, precisa dos serviços de saúde pública. E foi aí que o "jeito baiano" de ser levou uma rasteira ou um "rabo de arraia" e caiu por terra, a despeito de todo jogo de cintura dos seus personagens, vividos quase que na sua totalidade por atores soteropolitanos. Aí fica fácil dirigir e nem precisou recorrer à pesquisa para encaixar os sotaques e o jeito baiano de ser no filme. Perfeito! O ponto alto da comédia é quando a esposa do malandro, taxista Reginaldo, começa a sua via crucis à procura de um leito nas maternidades da cidade. Gente, me esborrachei de rir com os argumentos das atendentes dos hospitais: como trabalho na área, ri mais ainda por perceber que não houve exagero nenhum: é exatamente daquela forma que acontece. Tanto as falas das atendentes como os pedidos desesperados da parturiente e seus acompanhantes, que, sem encontrar vaga em nenhuma maternidade, voltam para o cortiço e uma Auxiliar de Enfermagem, juntamente com uma Baiana de Acarajé, fazem o filho do Reginaldo, até então ausente, vir ao mundo! Muito bom mesmo. Não estou fazendo essa postagem com o intuito de responsabilizar os atuais governantes pelo estado calamitoso por que passa a nossa Saúde. Não lhes dou cem por cento de responsabilidade. Isso é histórico e herança de muitos anos. O problema ou a culpa dos atuais homens do poder fica por conta das severas críticas que fizeram aos antecessores e que, hoje, em vez de cumprirem as eternas promessas de palanques, andaram na contra-mão, desativando centenas de leitos, a despeito do crescimento quase geométrico da população. Mas temos o que merecemos ou sempre vamos ter apenas o que merecemos! Parece maldição. Não aquela atribuída a alguma divindade, mas a maldição do imediatismo, onde, sem o menor escrúpulo, vendemos o nosso voto, tornando-nos mais ordinários do que aqueles que o compram. Um certo filósofo falou que "quem se vende vale menos do que recebeu". Não há como não concordar. Ontem, no SAC - Bela Vista, enquanto aguardava o chamado para resolver um problema, assisti à TV do órgão e justamente o que passava era a propaganda das tais Boas Práticas dos servidores, com a distribuição de prêmios aos projetos escolhidos. Vi na Maternidade Tsyla Balbino um projeto que se diz posto em prática que me deixou até com vontade de ser gestante, para poder receber aquele atendimento absolutamente humano e personalizado. Uma maravilha!! Agora, como no filme, vai lá e confere!! O que me deixa mais chateado é o depoimento de médicos e enfermeiros que colocam a saúde da Bahia como sendo de primeiro mundo. Por que esses mesmos médicos e enfermeiros são os primeiros a denunciarem as péssimas condições de trabalho justamente pela falta de estrutura desses estabelecimentos? Parece-me uma contradição das grandes ou, quanto será que receberam para mostrarem a cara na tal propaganda? Lembram do que disse o filósofo (quem se vende...)? O problema do Brasil é que, diante de tantos desmandos, a nossa capacidade de nos indignarmos ficou resumida a uma inercial expressão: "Ó paí, ó"!!!!

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