quarta-feira, 9 de abril de 2014

"...Diga aê ladrão"!!?

Às vezes o destino nos prega algumas peças interessantes: estou há duas semanas em Jacobina, juntamente com uma colega da Vigilância Ambiental, para participarmos de uma força tarefa coordenada pelo Ministério Público Estadual, visando combater garimpos clandestinos, tráfico de animais silvestres, contaminação do solo através dos lixões, coletando e promovendo a análise da água que a população consome, etc. Essa operação envolve vários órgãos e é aplicada em vários municípios no entorno de Jacobina. Por conta disso, o apoio da CIPPA- Companhia Independente de Polícia de Proteção Ambiental de Lençóis, é importantíssimo, porque muitos denunciados, por conta do prejuízo financeiro e pelo risco de prisão imediata, podem por as equipes em risco. Daí a importância dos policiais. O bacana que o destino me reservou foi, no meu carro, transportar todos os dias a dupla da CIPPA Wagner, Soldado e Magnaldo, Cabo. Dois caras incrivelmente bacanas, focados e diferentes de alguns fardados que conhecemos. Muito bem informados e formados, papo de primeira qualidade nos raros momentos de descontração pelas estradas. Magnaldo é de Iaçu e tem tudo a ver com outro grande amigo e policial, Capitão Clóvis, hoje na reserva. Os dois não se conhecem mas têm histórias curiosamente idênticas: o pai do Capital Clóvis era o chefe do trem de ferro Muchila, composição das mais folclóricas que rodou por trilhos baianos. O pai de Magnaldo?, maquinista aposentado, que também trabalhou no Muchila, indo com o filho pequeno '(Magnaldo) até Montes Claros, sempre que a outra composição apresentava "problemas técnicos", o que não era raro. Sêo Salustiano, pai do Clóvis, contava mil e uma história do Muchila. A mais corriqueira era a informação que ele passava para os passageiros: "Sêo Salu, a que horas o trem chega"? - perguntava um e a resposta era, via de regra, a mesma: "Olha, se saiu no horário, coisa que duvido, devemos embarcar amanhã ou, no mais tardar, depois de amanhã..."!! Essa era a rotina do Mochila amado por uns e odiado por outros. O Capitão, quando Chefe de Transporte da Sesab me contou um monte dessas histórias. E ele jurava serem verdadeiras, o que só reforça a veracidade, depois das confirações do Magnaldo. A outra coincidência é que o pai do Cabo Magnaldo TAMBÉM é de São Félix, como Sêo Salustiano e seu futuro Capitão! Uma das histórias do Magnaldo que me fizeram rir pra caramba, foi a de que havia em Iaçu num determinado período, um Juiz de Direito que de tão bruto atendia as pessoas em audiências quase de costas! Era um suplício ser réu "na unha do Juiz", como se diz. Uma certa senhora teve um prejuízo de alguns contos de réis, provocado por um seu vizinho, pedreiro e tão bruto quanto o Juiz! Não teve jeito: a lenga-lenga teve de ser resolvida na presença do Magistrado. Contou-me o Magnaldo que no dia e hora  marcada (ninguém ousava atrasar!!), perante o Nobre Julgador se apresentaram vítima e réu. Depois de ouvidas as partes e testemunhas, o sisudo de Toga profere a sentença: "Condeno o réu, senhor (...) a pagar TODA SEMANA a quantia de Cr$-50,00 (Cinquenta Cruzeiros), durante dez semanas, como indenização dos prejuízos causados à vítima, senhora Fulana de Tal"!! Como diz Jessier Quirino, entre o estalar do nome "Fulana e a imediatidade do "de Tal", o pedreiro pula da cadeira e meio que grita, indignado com a sentença: "Ôxi, ôxi... Vai robar, ladrão!! Cinquenta conto é o que eu ganho por semana!! Tá doido, é"? Contou-me o Magnaldo e jurou ser verdade, que o sisudo togado deu ma gargalhada que estrondou por toda a Prefeitura. Achou graça da espontaneidade e, certamente, entendeu que não houve nenhuma intenção de ofensa. Como resultado disso tudo reduziu a sentença pela metade e acabaram ficando quase amigos, porque o Juiz acabou por contratar nosso destemido pedreiro para fazer um trabalho na sua residência. Na hora que o Magnaldo me contou isso, eu ri mais ainda porque me lembrei de um colega de escola em 2013, no Colégio Abelardo Moreira, o Vinícius, que ao receber explicação sobre Norma Culta e linguagem coloquial, perguntou à professora: "sendo assim, quer dizer que eu posso, sem ofender, chegar para o Prefeito e dizer "diga aê, ladrão", certo"?

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