sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

O Compadre "Biodegradável"!!

Nessas minhas andanças pelo interior querido da minha Bahia, vejo coisas e lances que me levam de volta à Fazenda Licurisal, onde passei minha infância e pude vivenciar nas noites de lua bonita, "causos" dos mais variados. Prá não negar minhas origens, resolvi lhes contar um "causo" que por pouco não aconteceu (hehehe)!

O cumpade “Biodegradável”!!

Monte Alegre, hoje Mairi,  sempre teve fama de município com as melhores terras da região: pasto, plantação, aguadas e rebanho tudo era de fartura. Foi no fim da década de 70 que a assistência técnica rural começou a se instalar na cidade. Primeiro foi o escritório da Ancarba, que virou Emater-ba e que por último virou EBDA. O engenheiro agrônomo da Ancarba era Saturnino. Caboclo bom de prosa e de gole, substituído pelo Dr. Manoel, logo logo apelidado de “Mané Bafo de Onça”, não se referindo ao hálito do sujeito, mas à cara mesmo, idêntica à do personagem de quadrinhos. Por último, Dr. Juarez, à frente até hoje da EBDA local. Foram anos de árduas batalhas entre os engenheiros, técnicos agrícolas e produtores, para que esses se convencessem das vantagens que um projeto de extensão rural traria para suas propriedades.
 “...Ôme, sei o dia de prantá mio e fejão, o dia de capiná, o dia de dá terra, inté o dia que vai chuvê!! Basta oiá pra lua: se tiver uma “lagoa d’água” em vorta dela, é ba-ta-ta! Chove na certa. Entonce, acho que num carece do dotô se avexá com tanta ispricação”!! E os engenheiros não desistiam. Os mais esclarecidos contrataram os serviços do escritório para um projeto que deu certo. Depois da colheita, reunião no Sindicato para, vitoriosos, os  técnicos mostrarem a vantagem do projeto, visto que a produção aumentou e muito. Quem não perdia uma reunião era Nêgo de Lulu de Zefinha. Toda reunião tava lá. Não abria a boca mas não desgrudava os olhos dos palestrantes.
“Meus amigos – falava o engenheiro Mané Bafo -  hoje podemos identificar se a terra é boa ou ruim para uma cultura. Às vezes, uma terra que é boa pra mamona não serve para mandioca. E o que faremos? Usamos nas terras mais fracas, os adubos, que é como uma comida que dá “sustança”. A terra fica forte e a plantação fica por demais bonita...”
“Mas dotô – interrompe Zé de Maroto, o perguntador da turma – de que adianta a lavoura ficar uma verdura só se a “largata” vem,  pica lo dente e come tudo”?
“...Calma companheiro – pede o Agrônomo – vocês já ouviram falar de inseticida, pesticida e defensivos agrícolas”?
“Já... Mas nóis nunca viu” – responde o Zé de Maroto.
“Minha gente, se a plantação for atacada por algum inseto, aplicamos o inseticida certo e eliminamos o risco. E hoje temos uma novidade: Alguns inseticidas eram por demais venenosos. Lembram da Formicida Tatu e do BHC que a gente botava no feijão pra não dar gorgulho”?
“Esse remédio, o BHC, era dos mió: queria vê gurgui chegar perto”!! – Novamente Zé de Maroto.
“Pois é – continuava o agrônomo – O problema é que o BHC é altamente venenoso. Hoje temos inseticidas Biodegradáveis...”
“Peraê doto: bio o quê”? – Zé de Maroto quer saber.
“Bio de-gra-dá-vel Sêu Zé. Quer dizer que você aplica na plantação e quando a chuva vem o inseticida se desmancha na água sem causar dano ao homem ou à plantação. Entendeu?
“Quer dizer que o veneno se dermancha na água e fica por isso mermo”?
“É!! – Garante Mané Bafo- Não contamina nem o solo, nem a água nem a lavoura. Por isso que é Bio Degradável. Ou seja, em contato com a água se dissolve sem fazer mal a ninguém”! – Conclui. Depois dessa reunião as idéias se desanuviaram e começaram a pingar uns projetinhos aqui outros ali, tava andando. Algum tempo depois, noutra reunião no Sindicato dos Trabalhadores Rurais para nova avaliação, o Doutor Manoel lá estava, pronto para apresentar os resultados obtidos.
“Meus amigos...”
“Pére um poco  aí dotô. Iantes do sinhô cumeçá, queria lhe dizer que meu cumpadi Lorenço era um ôme Bio... desgramado... Não... Bio desgraçado... Cuma é mermo dotô”? – perguntou o sempre calado e observador, Nêgo de Lulu de Zefinha.
“Bio degradável, que não suja a água, por assim dizer, Sêo Nêgo”!
“Isso mermo dotô: Bio degradáve!! Num sujou a água nem qonde morreu”!! “Uhhhhhhhh” – Zum zum zum pelo salão e o Doutor Manoel interveio:
“Calma gente. Calma!! Sêo Nêgo, o que o senhor disse”?
“Disse que meu cumpadi Lorenço é esse tal de bio aí que o sinhô falô. Igualzim: nem sujô a água qonde morreu”!!
“Mas... Morreu como? E por que o senhor afirma que sêo Lourenço era Biodegradável”?
“Bão, se o tar defensivo não suja o chão nem as pranta nem a água, assim era cumpadi Lorenço. Fumo pescá no Poço dos Fole, o Jacuípe tava recebeno água do morro, água escura e na passage da fazenda Licurisá de Sêo Belaniso para Vais do Poço, as pedra da marcação já tava tudo cuberta. Rio violento que só Dôga de Severo, distimido que só o Nêgo d’Água, se arriscava trevessá a nado. Pois bem, tava nóis pescano quano meu cumpadi iscorregô e caiu no poço. Foi num piscá de ôio que eu vi aquela frevura na água, pareceno que meu cumpadi era uma pastía de sonrizá. Freveu ligeirim e de repente tudo se acarmô. Num tive nem tempo de jogar uma vara pr’êle se agarrá. Daí, lembrano do que o sinhô falô a nóis isturdia, maginei que o cumpadi Lorença tombem era esse tal de bio degradáve. A água num sujô e num sobrô nem o chapéu de paia que ele usava. Só num entendi uma coisa dotô: adispois do acontecido, ainda besta cum o susto, oiêi num cantim do poço, numa sombra de areia branca e vi umas duas ou três piranha deitadinha co’as costa na terra, barriguinha pra riba e as nadadeirinha ispalitano os dentim. Piranha tomém será bio degradáve cuma meu cumpadi Lorenço, dotô? Não!! Né não!! Ôxi, se fosse, derretia tudim na água. Né não dotô?

(13/12/13
Orlando Araújo.



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