segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

Eu Mereço!!!

Domingo ensolarado, lindo, nada a fazer a não ser aceitar o convite de um amigo para fazer uma roda de viola na sua fazenda, regada a cerveja gelada e picanha assada. Poderia ter alguma coisa que estragasse esse dia? Não!! Seria o dia perfeito não fosse por um pequeno detalhe que lhes contarei mais abaixo. Ao receber o convite fiz contato com Luis de "Sêo" Nem (cavaquinho), Dyon da Silva (violão) e Zequinha Lumbrigó (pandeiro). Às 08:30hs da manhã partimos para a fazenda transportados por um Fiat Uno zerinho, e a perspectiva de fazer uma boa roda de viola. Chegamos, muita gente reunida, alguma carne já assada porque o amigo fazendeiro abate uma rês todo domingo para fornecer carne a toda vizinhança, som apropriado para a brincadeira, enfim, tudo certo. Começo a mudar as caixas de som de lugar, arrumo de forma a termos algum retorno sem dar microfonia, arranjo uma cadeira e posiciono o microfone e o caderno de músicas de forma que eu pudesse ver as letras das músicas do conforto do meu assento. Os outros, que são jovens, ficaram de pé. Às 9:30hs já havíamos começado a festa: recorro ao repertório e escolho a música Chalana, instrumental caprichado, na tentativa de impressionar a galera que para mim era totalmente desconhecida. Nisso uma outra cadeira é colocada ao lado da minha e vejo um simpático rapaz com um corte de cabelo à Neymar e imagino que aquela manhã de viola não será a que eu havia imaginado. "Eu só não acerto na Loteria", como diz um amigo meu! Agora, o "pequeno" detalhe: Após duas ou três músicas meu vizinho de cadeira "ordena" no eu pé de ouvido: "Toca aê Bebim pra carái..."! Fiz ouvido de mercador e continuei tentando mostrar modas bem elaboradas na viola. Meus parceiros de empreitada também caprichavam nos instrumentos para a coisa sair mais ou menos bem feita. Traziam uma cerveja e meu vizinho era o primeiro a erguer o copo para ser servido. Tudo bem, faz parte. Outra vez "toca aê Bebim pra Carái q'eu canto"!! Terminei a música já meio impaciente com o cidadão que, ao contrário da tal "música" não estava bêbado. Aí passo-lhe a informação de que estamos com a proposta de fazer uma Roda de Viola e que aquele tipo de música não estava nos planos do grupo! Começamos novamente com o Dyon tocando músicas suas e de Dodô, parceiro seu e irmão do dono da Fazenda. Muito legal não fosse pela insistência do cidadão no meu ouvido insistindo "toca aê véi, Bebim pra Carái!!!" Não aguentando mais parei a viola e lhe falei com todas as letras: "Porra véi, você não tá vendo que o tipo de música aqui é outro? Eu não conheço essa música e como é que você quer que eu toque"? A resposta imediata: "A musga é minha e o Dyon sabe..." Ok! Para não criar um clima, paramos e pedi ao Dyon que acompanhasse o "Tom Jobim" da Baixa Funda. Nosso intrépido violonista se ajeitou, deu o acorde e fez o ritmo brega rasgado e o cantor e compositor começou a mostrar sua poesia: "Hoje tô bebim, bebim pra carái, bebim, bebim pra carái... Hoje tô bebim, bebim pra carái, bebim, bebim pra carái..." Ao final dessa grandiosa apresentação palmas e vivas que não sei de onde saíram tantas!! E olha que com as nossas elaboradas músicas o máximo que conseguimos foi um sorrisinho aqui e ali! Tivemos de nos render ao "mestre" que se apoderou do microfone e desfiou um rosário de "pérolas" que, para nossa sorte, o Dyon sabia acompanhar todas. Tive a confirmação ontem de que a "latrina cultural" que infestou as cidades, como uma represa que transborda, levou suas "águas" podres pelos riachos, desaguando nos rincões outrora conhecidos como redutos de caipiras e sambadores. Hora de retornar, colocam-nos num garboso Chevette branco e pegamos a estrada com muitas pedras. Com cuidado para não machucar o "possante" o motorista nos informa a todo instante que a máquina é "rebaixada" e por isso anda devagar. Dei várias gargalhadas internamente porque havia percebido que as molas e amortecedores estavam aos frangalhos! "Rebaixado..."! Pois sim! Num trecho da estrada onde as pedras são mais escassas, nosso "Felipe Massa" acelera um pouco mais e na baixada, para desviar de uma insistente pedra, dá uma pequena rabeada o que faz o dono do carro, seu irmão, ralhar. Chegamos finalmente em Mairi e, para não quebrar a tradição dos Chevettes, no primeiro quebra-molas o possante apagou o fogo. "Foi um cabo de vela...", informa o piloto. Capô aberto, algumas mexidas nos tais cabos e após uns "ton nhon nhon nhonn... vrummmm" o carro pega. Ficamos em casa de camisas ensopadas pelo suor do calor de meio de tarde! Quem disse que o "matuto" quer saber de Sérgio Reis, Inezita Barroso, Tonico e Tinoco, Almir Satter, Renato Teixeira, etc? Se não rolar "Fazer parrrá pá pá, parrrrá pá pá" ou "Bebim pra carái", não presta!! Acho que vou seguir o conselho do Paulinho da Viola e deixar a minha "no fundo do baú!" Por essas e outras me vem a constatação: estou velho! O que aliás, em vez de me entristecer me dá a certeza de ser uma das poucas vozes destoantes e que combatem o "lixo musical" que nos impõem. Posso lhes garantir uma coisa: ouvirei outras porcarias do gênero mas "Bebim pra carái" nunca mais deixarei alguém cantar quando estiver fazendo uma violada com os amigos. Até porque não pretendo sair da "segurança" da minha casa. Mas é assim mesmo. Pelo "compositor", pelo conforto e originalidade do Chevette, só posso dizer uma coisa: eu mereço!!!

Nenhum comentário:

Postar um comentário