domingo, 23 de dezembro de 2012

O adeus "light!"

Algumas pessoas podem achar que estou sendo frio ou insensível com "a dor dos outros", porque vou relatar algumas coisas que fazem com que alguns sepultamentos não sejam marcados pela dor profunda mas, no caso específico que citarei, foi marcado não só pela união da família mas também pelo clima "relax" promovido por um familiar, nos moldes do desencarnado. Para vocês entenderem o que digo vamos falar um pouco de outro desencarnado. Quem teve a honra de conhecer e viver com Raé sabe que as "sentinelas" e os enterros dos quais ele participava nunca eram cem por cento tristes! Raé parecia o enviado para tirar um pouco da tristeza dos corações dos familiares causada pela perda, com seu bom humor ímpar que, ao final, até algumas viúvas se fossem suas amigas, acabavam descontraídas e até rindo. Tudo bem: não eram e nem podiam ser gargalhadas mas convenhamos que arrancar um riso de canto de boca que fosse, numa situação daquelas era, no mínimo, um grande feito. E assim era: quando o caixão se deslocava para o cemitério e, dependendo da "figura" no "paletó de madeira", era aquela disputa acirrada para ver quem carregava mais vezes o ataúde. E Raé, atento, tome-lhe a fazer galhofadas sobre quem era mais ou menos puxa-saco. Se a "figura" não fosse lá essa "figura" toda e não houvesse concorrência para o transporte do ataúde, novamente uma "tirada" dando conta de que ninguém queria carregar o "presunto". E assim o enterro se consumava e o clima, dentro do possível, era dos melhores. Ficamos todos tristes com a notícia do falecimento de Otoni Simões Costa. Inevitável a consternação. Não pela morte pura e simples mas principalmente pela perda da "figura" que o Otoni era: excelente pai, excelente amigo, muito gozador e  galhofeiro em outros tempos, a exemplo de Raé. E os dois estavam, quando mais jovens, sempre juntos a rirem-se de situações vividas ou patrocinadas por outrem. O bom humor do Otoni era sabido por todos. E se tivesse bebido uns dois goles então... Extremamente gozador. Não aquele gozador que tira sarro da cara dos outros mas o bom gozador que, invariavelmente, fazia gozações onde só entendia quem tivesse raciocínio rápido como o seu. Era uma gozação sem agressão, filosófica, por assim dizer. E meu querido amigo Otoni teve o seu enterro também, como terei o meu se Deus quiser (não quero ser como Ulisses Guimarães!!!). "Oh!! Mas não tem Raé para fazer as gozações com o Otoni..." poderiam pensar outras pessoas com extremo pesar. Qual o quê!! "Ninguém é insubstituível!" É verdade: até o grande Raé tem substitutos. Dessa vez foi o próprio filho do Otoni, Fernando, que fez "as honras" do "evento!" como "quem puxa aos seus não degenera", Fernando saiu exatamente brincalhão e gozador como o pai. Imagina se ele (Fernando) ia perder a oportunidade de tirar uma filipeta com alguém! Amélia me disse que no cemitério, sob um sol escaldante das 15:00 hs, aguardava-se o "coveiro" alargar a boca da "carneira" para que o caixão pudesse entrar?! Primeira situação de piada: fizeram a boca mais estreita que o caixão! Daí alguém comenta "Otoni tá resistindo pra entrar...!", nos moldes de Raé que certamente diria: "Otoní tá remetendo feito o bicho da cara-vaca!!" Ele pronunciava o nome de Otoni como palavra oxítona, uma forma de "afrancesar" e sacanear com o amigo. Enquanto o rapaz se esforça para alargar a tal boca e reina o silêncio típico dessas situações, Fernando começa a cumprir seu papel de deixar mais leve a despedida do ente querido. Vendo seu irmão Olival no sol e vermelho como um camarão aferventado, chama a irmã: "Lêu, será que se a gente colocar uma carninha de hamburguer na careca de Olival dá pra assar?" Pronto: era o que faltava para começar o relaxamento daquela incômoda situação. Enquanto os trabalhos não terminam na "carneira", descobriram os restos mortais dos seus avós em sacos para serem devolvidos à família. Leila chama a sobrinha e mostra: "Olha, você que quer ser Médica Legista, dá uma olhada nos restos mortais dos seus bisavós!!" A menina abre os sacos e percebe que os cabelos da bisavó estão perfeitos, apesar dos anos de sepultamento. Inocentemente ela chama o tio Fernando para ver também. Esse chega, abre o saco, olha e imediatamente comenta, imitando o comercial da Nova Schin: "...Só pele e osso!!!" Aí não teve quem não levasse a mão à boca para abafar a gargalhada. Mas existem pessoas com essa missão. Quando eu morrer, ai daquele que vá levar tristeza a quem já deve estar triste! Gostaria que aparecessem os Raés, os Fernandos, os Rimundos Esquios, de preferência que tocassem viola ou outro instrumento para fazerem galhofadas na "sentinela" e no enterro. Tristeza? Não!! E se eu dissesse que Raé era o "vizinho" de Otoni nas "carneiras" vocês acreditariam? Pois acreditem, era! Já imaginaram a recepção? Pra finalizar, uma situação real que poderia ser piada: no Espaço Bokapiu estava acontecendo a Festa do Paketá com a banda do mesmo nome! Como o cemitério fica na mesma linha do espaço e com o vento a favor, o enterro foi consumado ao som da música que fez sucesso na campanha de Mairi. Situações típicas e dignas do grande Otoni! Até mais tarde amigo!

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