segunda-feira, 16 de julho de 2012

Para Refletir!

Mãe e Filha: quem tem razão? (Maria Lúcia Dahl)


Uma é mãe, a outra é filha. Uma, a extensão da outra, difícil destino que se entrelaça,
revolta, recusa-se, esperneia, reflete-se, trapaceia. Uma é a outra amanhã, outra foi
aquela ontem. Uma sabe, intui, adivinha o que a outra esconde, inverte, imita, finge que
não é. Uma menina, outra mulher.
Brincando de casinha de boneca, procurando estrela do mar, fazendo castelo,
aprendendo a nadar.
-Não quero comer, não quero.
-Come os legumes, eu espero. Olha só o aviãozinho. Anda, vai logo, come, se não, o
aviãozinho some!
À noite a mãe conta história. A filha tem medo da bruxa.
-Que maldade, mamãe, puxa!
-Não tem que se preocupar! Branca de Neve caiu dura, mas chega o Príncipe e a coisa
toda muda de figura!
Se a mãe sai, a filha lhe deixa bilhetes presos na parede e fica esperando a mãe,
balançando-se na rede.
-Espera, não lê agora. Ainda não está na hora. Assim que a gente deitar, você pode
começar.
Saem, riem se completam. Não querem saber de ninguém. Ficam as duas muito bem.
A mãe veste a blusa da filha, a filha, a saia da mãe. Mães e filhas refletidas numa
inversão divertida.
Mas a filha vai crescendo e a mãe nem vai percebendo.
A mãe corta o cordão umbilical da filha quando nasce. A filha, quando adulta, corta os
laços. A mãe, pra existir, se dá à filha. A filha, pra poder viver, a rejeita.
Em que momento da vida deixaram de ser cúmplices? Quando é que pararam de se
divertir? Contar histórias? Trocar de roupa, rir? Desde quando que a mãe chora?
Quando é que a filha foi embora?
Uma já viveu, ao seu modo o que a outra vive agora.
A filha é a criança da mãe. A mãe, o super-ego da filha.
A filha se enche de inpaciencia diante da mãe, a mãe, de dor pela filha. Ambos os
sentimentos se extrapolam em ninharias ridículas. Uma fez isso, outra, aquilo. Uma agiu
assim, outra assado.
-Olha, mãe, tudo acabado.
-Quem tem razão, as mães ou as filhas?
A filha não agüenta mais nada. A mãe sempre agüenta mais uma. As dores são ondas
que oscilam de intensidade. Uma ou outra mais forte, tira-lhe o fôlego, joga-a no chão.
Nada que não a faça voltar à tona, ver de novo a onda verde, retomar a respiração.
A filha nada contra a mesma maré que um dia embrulhou a mãe. A mãe estende-lhe a
mão, delicada.
A filha recusa, indignada..
-Me deixa nadar sozinha.
Sempre a mesma ladainha...
Quantas ondas grandes a mãe teve que furar? Quantas arrebentações driblar? Onde
estará ela, a filha? Ali boiando, esquecida, e a mãe a se preocupar que se afogue, nas
ondas verdes da vida.
-Me empresta o carro pra eu ir à festa?
-Por que não põe uma roupa mais transada, uma blusa decotada, um vestido de outro
tom? Minha filha, não acredito: cê vai sair sem baton?
-Ai, meu saco, vou-me embora. Dá pra me emprestar agora?

-Depois dorme aqui, vê se come...
-Esquece. Não quero ficar.
-Pena...tinha tanta coisa pra contar...
-Ora, mãe, pára de fazer drama. Ce quer mesmo é cair na cama...
-Vai de novo viajar?
-E você, me controlar? Saco! Ta mais que na hora! Escuta, mãe, vou-me embora..
-Não esquece de apagar a luz, fechar a porta...cuidado com a violência...
-Ai, mãe, tenha paciência...
Em cima da mesa um bilhete: “mãe, desculpe o mau humor, mas é que eu ando uma
pilha!”
Quem tem razão? As mães ou as filhas?

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